• A adoentada atlética

                Vinham em um desses ônibus coletivos. A palavra coletivo até parece irrisória para destacar aquele lugar. Em primeiro lugar é preciso dizer que coletivo não se adéqua aos princípios do coletivo comunista ou algo assim. Em segundo lugar, se o termo coletivo se refere de fato a um lugar notoriamente privado, mas aberto ao consumo para todas as classes, então se pode dizer que era um ônibus coletivo. De fato o era. E lá estavam umas 100 pessoas apertadas, espremidas, cheirando cada uma o cheiro natural do outro. Talvez o socialismo capitalista e a sua efetiva realização. A socialidade máxima do espaço privado concorrido, disputado, cheirado, ejaculado...
                E lá estavam três amigas. Uma era a mais adulta, usava chapéu e gostava de roer as unhas. Estava ansiosa porque jogou na loteria e esperava ganhar. A outra conversava sem parar numa rapidez incompreensível, com uma variação muito parecida com uma das línguas de tronco Tupi-guarani. A terceira, no meio de dois homens, fumava o odor das axilas de um deles e tinha o outro lhe roçando a bunda, o que a incomodava sobremodo. Não aguentando o calor sufocante começa a passar mal e cai. Corrijo: não caiu, porque não dá pra cair em um lugar apertado, espremido, lotado. Sorte a dela! Ou Azar! E nessa contradição, foi o rapaz da traseira que percebeu que ela estava em estado de mal súbito. Segurou e aproveitou para segurar na perna direita, e sinalizou a todos.
                Consta que ninguém ouviu, com exceção das duas outras amigas. A conversadeira parou logo e perguntou algo tão rápido que ninguém entendeu. A mais adulta se moveu empurrando um casal gay, ao que se desculpou, e acudiu a amiga. Tentou acudir e precisou ser acudida pelo casal gay que empurrou, pois tropeçou na perna de alguém e, dessa vez, por sua vez, caiu. É preciso esclarecer que um dos namorados tinha se relacionado com a garota que desmaiou. Era um desses rapazes bissexuais declaradamente heterossexual, mas que praticava o duplo comportamento e abnegava a opção heterossexual.  
                O ônibus parou na avenida próxima ao hospital e num imediatismo seco a doente se deslargou do braços de um dos homens que a desceram do ônibus e pôs-se a subir a enlouquecidamente a ladeira que dava no hospital. As duas amigas, de uns quarenta e pouco, mais ou menos, não conseguiram acompanhar. Ainda assim se puseram a tentar acompanhar a convalescente. A mesma corria sem parar. A ladeira era íngreme e a conversadeira das três começou a passar mal e desmaiou.  A mais velha já estava uma esquina à frente e nem viu o sobressalto. Corria sem para a fim de acompanhar o ritmo da doente que, enlouquecidamente, ia depressa quase correndo, com uma força quase que sobrenatural, se é o que defensores da pureza metafísica me entendem.
                A mais velha das três, que ia forte, um pouco mais perto da convalescente, também cansou, e caiu ajoelhada. Bateu uma fraqueza e ficou inconsciente na calçada, em frente a uma funerária de alto nível. O dono, presente, não sabia se deveria chamar uma ambulância ou localizar a polícia técnica e a família, no sentido de encomendar mais rapidamente o serviço funerário, e, é claro, gerar mais lucros para seu negócio.
                Enquanto as duas mulheres desfaleciam no caminho ia lá a doente chegando na praia. Adentrou o hospital com tal violência e disse em voz alta que estava passando mal. Todos se assustaram e logo foi ignorada, pois era situação das quase três centenas que dividiam o saguão. Acometeu-a é que estava cheio, lotado, igual ao ônibus coletivo da iniciativa privada. Acontece que a atendente nem a ouviu, pois lia uma dessas revistas de fofoca de telenovela e artista, e até se irritou pela insistência daquela mulher. Que mulher chata! O povo nem paga e ainda quer exigir...
                Insistiu mais uma vez a convalescente. A mulher lhe respondeu que não poderia atendê-la, pois não lhe parecia caso urgente. No exato momento entram as macas com as duas outras amigas que caíram no caminho do hospital. A atendente ainda completa em tom de justiça brasileira, se referindo às duas macas entrando : “Isso que é urgência...”