• O ENTRADOR DE BANHEIROS FEMININOS

    Esta crônica nem ia ser escrita. Mas houve uma verdadeira revolução de alguns leitores. É preciso dizer que algumas vezes alguns leitores fazem verdadeiros sindicatos e se reúnem contra os autores que estes conhecem ameaçando-lhes se eles não contarem as histórias mais bizarras.



    Ele não tinha o costume de olhar a porta dos banheiros antes de entrar. Aquela legenda, rótulo ou como quiser chamar, meu nobre leitor, que serve para indicar o sexo bem vindo ao toilet. E isso causa verdadeiros eventos desagradáveis. Sim. E se há de contar que naquele dia ele tinha passado uma verdadeira chuva de azar. Começou no emprego: foi demitido. E angustiado resolveu para no bar para tomar o trivial chope. Tomou todas e mais um pouco. Depois descobriu que além de não ter dinheiro, sua mulher tinha roubado todos os cartões. Essa era viciada em compras, e tinha lhe dado golpes econômicos que desafiam todas as análises econômicas já feitas.


    Não foi um bom dia. E se há de falar que ele estava muito cansado. Juntando esse cansaço desenfreado à cabeça de poeta que ele tinha (cabeça na lua) deu no que já se esperava. Ele adentrou um banheiro feminino no bar onde estava. E quando se sentou no vaso sanitário, feliz da vida, não se sabe por que uma vez que estava cansado, leu em letras grandes na porta do lugar onde estava: “Eu amo Thiago”. Mas não! Aquele não era uma banheiro masculino! Não que um amigo não possa amar o outro. Retifico meu apoio ao amor ao próximo. Que um amigo ame o outro a tal ponto que lhe declare seu amor de amigo, isso jamais seria representado na porta de um banheiro. Não na cultura paternalista, agrária e machista do Brasil. Talvez um discurso homossexual de amor platônico, ele pensou. Mas nunca. Platão jamais teria ido tão longe. Retifico meu apoio aos diversos tipos de amor. Mas em parte, só para alguns leitores, os que não enxergarem em mim apologia a discursos preconceituosos, não acredito que alguém homossexual se expusesse tanto. Então sugiro que ele estava numa boa enrascada. Sim, aquele era um banheiro feminino.


    Quem nunca ouviu falar da história da velhinha americana que entrou no banheiro masculino, gritou quando viu um homem urinando, foram os dois atendidos pela polícia que julgou o rapaz como “tarado”. Pobre rapaz. Estava apenas participando de um evento tão involuntariamente normal da vida do homem e da mulher: o urinar.


    Mas voltando ao nosso bom e esquecido personagem, ele estava enrolado. Limpou-se mais rápido que Dom Pedro Alcântara naquele dia de Abril nas margens do Ipiranga, e quando abriu a porta pra fugir, ouviu passos no corredor. Voltou a fechar a porta. Sentiu que era uma mulher com salto. Essa entrou num dos banheiros e gemeu. Pobre dela! Nem sabia que havia ali do lado um ser do sexo oposto, um poço de reações químico físicas, com indecisões peculiares a qualquer um desses bichinhos chamados seres humanos. Pobre dele também, leitor de meu texto. Imagine um homem nessas situações. Se a velhinha americana fez o que fez num banheiro masculino, imagine um homem num banheiro feminino. Podia ser processado juridicamente e agora não possuía recursos financeiros suficientes para aguentar um processo nas costas. Não ia caber só um atentado ao pudor, mas se houvesse um juiz que fugiu às aulas de Direito, o crime podia ser considerado como Atentado Violento ao Pudor.


    Mas agora precisava sair dali e não sabia como. Ela cantava uma música. Eram tons desorganizados, cambaleantes entre duas ou três tonalidades. Os peritos musicais preferem não usar a palavra desafinação. Que seja. Ele não aguentava mais. Mas agora parecia que ela lavava as mãos, sem parar de cantar qualquer música em castelhano primitivo. E bastou sentir que aquela mulher tinha saído do recinto pra ele pular do vaso pra fora de vez, quando foi surpreendido por ela de volta.



    – Felipe? – ela surpreendeu ele.


    – Eu... – ele balbuciou. – Eu posso explicar.


    – Sim – disse ela – Você veio atrás de mim e ficou aqui na porta esperando. A sua mulher não está aqui no bar, está?


    –Não, claro que não!

    Há ainda de se falar que um beijo selou aquele diálogo. Do que vale a boa intenção dos poetas e escritores senão a ousadia dos personagens? Mas que claro fique que há mais coisas entre o céu e a Terra do que supõe a nossa vã filosofia, não é mesmo, Will Shakespierre?