• O HOMEM QUE SUMIU NO SISTEMA

     Clique e baixe em PDF!!


    Após entregar um livro que não tomei emprestado, porque não constava empréstimo nenhum, nem que eu devia algo.




       Todo sistema tem sua falha. E nessa falha tudo acontece. Acontece é que ele era muito conectado a todas as tecnologias. Tinha blogs, microblogs, e-mails, contas em redes sociais – além das contas normais de cartão de crédito, corrente, crediários em empresas, etc. Mas um dia sumiu do sistema.


       E não sabe como foi. Saiu pra estudar e observou que seu nome não constava na lista de presença de sua universidade. Reclamou com a professora, que lhe conhecia muito bem, mas ela realmente disse não saber por que a lista estava sem o nome dele. No outro dia ele foi até a universidade resolver o problema. Passou antes no caixa eletrônico, colocou o cartão e deu “Cartão recusado”. Mas como? Colocou novamente. E a mensagem reapareceu. Era muita falta de sorte. Resolveu deixar o dinheiro pra pegar depois. Subiu então pra reitoria da universidade. Esperou alguns minutos e observou um homem de terno que ao lado dele lia um artigo da National Geographic.


       Finalmente chegou a vez dele. Entrou, deu bom dia e foi logo direto ao assunto. O homem que o atendeu pediu a identidade e o CPF. Ele deu educadamente. “Mas o senhor não estuda nesta instituição!”, disse o homem. “Mas como? Que absurdo é esse?”, ele retrucou. Tentaram umas dez vezes e nada constava do nome dele no sistema. O homem saiu para pesquisar o vestibular que ele supostamente teria feito pra ingressar na universidade. Após alguns longos minutos voltou dizendo que ele jamais fizera qualquer vestibular na universidade. Ele ameaçou chamar a polícia. Mas qual seria a acusação?


    Não importa. Sempre se inventa alguma.


       Chegou em casa desesperado. Precisava fazer alguma coisa. Como não havia prestado vestibular? Estudou tanto. Precisava abrir um processo contra a instituição. Mas primeiro deveria resolver o problema com seu cartão do banco. Iria mandar primeiro um e-mail ao serviço técnico do banco. Tentou primeiro pelo próprio site do Banco e deu CONTA INEXISTENTE? Mas por quê? Não, não devia quebrar a cabeça. Era muita falta de sorte. Que loucura seria aquela? Mandar um e-mail para eles seria a solução. Copiou o endereço eletrônico do serviço técnico e abriu o site servidor do e-mail. Digitou endereço e senha e deu DADOS INCORRETOS! O que estaria acontecendo? Tentou abrir os blogs, microblogs, todas as contas. Ele jamais existira naqueles sites. Saiu de casa aturdido e entrou num ônibus. O cartão estudantil dele não funcionou após dez tentativas. Ele nunca havia sido estudante. Pagou com dinheiro em espécie. Este não lhe abandonava.


       Entrou louco no Banco e após longas horas de espera, o que é normal nos bancos brasileiros, foi enfim atendido por um homem barbudo, com um sorriso sarcástico e cara de sádico. Descobriu que nunca havia sido cliente daquele banco, e que o cartão dele inclusive era clonado. Foi agarrado por seguranças, porque o banco pegou um clonador em flagrante. Na delegacia descobriu que sua carteira de identidade também não existia, era falsa. Assim como todos os documentos que tinha. Aliás, nem constou em nenhum cartório que ele tenha sido registrado. Foram feitas pesquisas em todos os hospitais do país. Mas em nenhum estava o nome dele. Ele não tinha nascido ainda. Aliás, encontraram um nome parecido com o dele – mas era o presidente da república! Foi rapidamente preso por ameaça... ameaça de que mesmo? Nem consta ameaça nenhuma contra ele. Aliás, a ocorrência não podia ser feita com alguém que nunca existiu. Foi então solto.
       Resolvi lhe dedicar esta crônica após ele me contar sua história numa dessas calçadas da vida, onde ele serve de mendigo. Que fique claro para todos que pelo menos aqui ele consta. Pelo menos aqui ele existe. Essa crônica lhe é dedicada. Qual era o nome dele mesmo? Não consta o nome, mas que todos e todas saibam que pelos menos aqui ele existiu. Infelizmente não sabemos se este texto tenha sido escrito realmente ou se será lido e quem de forma absurda o tenha escrito. Mas que conste que ele existiu. Ao menos na mente ensandecida de alguém. Que conste, quero que conste que ele existiu.



    VEJA MAIS CRÔNICAS