• A MULHER QUE SE CASOU COM UM POSTE DE ELETRICIDADE

                      Dedicado a Thieny


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    A mulher que mora no outro lado da rua em frente à minha casa se casou com um poste de eletricidade. Isso aconteceu, dizem as bocas malditas, por que descobriu que o poste é mais interessante do que todos os homens do mundo.


    Contam, não sei, que essa mulher tinha muito dinheiro. E rodou o mundo atrás do homem perfeito. A encrenca começara com o baiano. O baiano não era o homem perfeito. E foi seguindo todas as armadilhas dos estereótipos culturais que se mudou pra São Paulo. Mas lá também não havia o homem ideal! E como ele seria? De cara limpa, branca, sem muita barba, mas também sem aquela cara de garotão, com um corpo másculo, mas também sem ser um daqueles rapazes que só se preocupam com os músculos e se tornam verdadeiros trogloditas humanos. Com olhos absolutamente verdes, um nariz afilado, boca não muito grande. Esse é só o começo do que pra ela significava o homem perfeito. O homem perfeito não podia ser tão baixo como Napoleão Bonaparte, nem tão alto como o gigante Golias. O homem perfeito não podia ser pobre, mas também não podia ser um daqueles tipões que trabalham o dia todo e não têm tempo pra família. O homem perfeito da nossa amiga tinha que ser fashion, nunca cafona, mas simples em sua elegância para não despertar ciúmes nas outras.


    Ela pensou em tudo. O homem perfeito tinha que ser inteligente, mas não podia ser intelectual desses que deixam de comer para discutir Marx ou chegam na cama e resolvem discorrer a teoria de Sartre. Não, o homem perfeito tinha que ser contextual, adequado pra todas as horas, multifuncional. Por último o homem perfeito tinha que ser romântico, lhe dar flores uma vez na semana, mas nunca meloso. Bom de sexo! O homem perfeito tinha que ser bom de sexo. Ela queria o orgasmo em todas (não tantas na semana) as vezes que eles decidissem transar. O homem perfeito pra ela tinha que ser um selvagem civilizado na cama que pudesse sussurrar “Te amo”, “Calma, vai dar tudo certo”. O homem perfeito não vinha. Enquanto isso nossa amiga dava tocos em todos os homens que se aproximavam.


    Resolveu viajar todo o Brasil atrás do homem perfeito e não encontrou. Encontrou promessas piores do que as dos políticos. Chegou a lavrar o contrato com um deles, e viveram uma relação de carinho até que ela descobriu estar se relacionando com um homem casado. Sim, ele era casado. E ser casado é ser imperfeito. Ela então saiu pelo mundo atrás do homem perfeito. Aprendeu a se comunicar em umas dez línguas e não conseguiu achar o homem perfeito. Este deveria estar preso, coitadinho, em uma sela escura, sofrendo as piores atrocidades. Pobres príncipes encantados!


    Ontem soube que semana passada, após voltar ao Brasil se casou com um poste, com padre e tudo. E sabem o que foi mais engraçado de tudo? Na hora do casamento o poste entortou, como essa manada de homens imperfeitos e caiu, acabando com a rua de toda a cidade e matando dois músicos. Não, nem o poste era perfeito. Nada é perfeito! A Terra não é perfeita! Nenhum homem é perfeito! Nenhuma mulher é perfeita! Nada é perfeito! Eu não sou perfeito! E sabem por quê?


    Porque a perfeição é pobre. A perfeição é utopia. A perfeição é uniforme, unilateral. Ser perfeito significa estar vestido de só de uma cor e praticar aquilo arduamente, para nunca errar. E o ser humano está longe disso, felizmente. Porque o que tem feito tão bela essa vida, acreditem, não é a perfeição, é o modo como essas coisas estão desarrumadas, o modo como as pessoas se vestem diferente, falam diferente, pensam diferente, se comportam diferente. O modo como elas são imperfeitas. A natureza é imperfeita porque tem um oceano lindo cor de azul, com partes verdes e que se diferem da terra negra e roxa.


    Este texto foi escrito pelo mais imperfeito dos homens.




    Gabriel Nascimento


    Ilhéus, 06 de julho de 2010


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