• ESTUDANTE BRIGA COM MENDIGA PRA TER SEU DINHEIRO DE VOLTA

        Saiu no jornal e tudo: “ESTUDANTE BRIGA COM MENDIGA PRA TER SEU DINHEIRO DE VOLTA”. Aconteceu numa praça de uma cidade que prefiro não citar o nome. Prefiro também não citar o nome desse estudante, leitor curioso. Talvez porque seja mais um desses personagens que dão o que falar, é comentado em jornais e polemizado pela crítica. É necessário, porém, dizer que ele era estudante de psicologia.


           Fato é que ele estava sentado na praça quando chegou a mendiga, em seu natural exercício de “trabalho”. Sim, trabalho. Todos ganham a vida como podem. Cada um tem o motivo para ter escolhido aquela posição, ainda que trabalhe de forma inconsciente nesse motivo. Nunca esqueço a história de um homem trabalhador, honesto e público que enlouqueceu de uma hora pra outra e foi internado às pressas no hospício porque mordia a mão das pessoas. Um ou outro amigo o visitava e dizia para si ou para algum raro acompanhante: “Ô, cara, que porra! O cara podia tá aqui trabalhando, em sua vida normal, e tá aí encarcerado, a vida acabou”. O “louco”, por sua vez, em sua cela solitária pensou consigo mesmo após o amigo se despedir: “Coitado! Poderia estar aqui, sustentado pela sociedade e pelos órgãos do governo e ONGs baseadas nas ideias iluministas, livre de pagar impostos, mas está aí, sustentando políticos e milionários achando que trabalha pra ganhar dinheiro, quando muito trabalha pra pagar os serviços que utiliza...” Utilizo das retiências pra não acabar todo o pensamento daquele “pobre louco” que dissertou desde a hipocrisia imposta na invenção da escrita até os pressupostos de Marx ou Fourrier”. São lados confusos de uma mesma história.

        Sentado na praça o jovem foi abordado pela mulher que rastejava. Ao ver a situação frágil daquela criatura aviltada por essa sociedade injusta, essa terra de ninguém, essa selva de seres irracionais ele tirou “qualquer coisa” do bolso e deu a ela. Mas nesse momento falou o estudante de psicologia dentro dele. “Por que a senhora está nessa situação?”, perguntou ele. A mulher então fez uma figura rude, vítima da chuva de desigualdade, de um acidente de carro que lhe tirou os movimentos inferiores e “burra” de dar medo a qualquer fascista. Ele então percebeu a farsa. Nenhum ser humano (nenhum!) é burro, ou rude que esteja nessa situação porque ninguém vai olhar pra ele, e ele decidiu que a vida se resume apenas a rastejar e pedir dinheiro. Não consigo imaginar um ser humano tão menos inteligente do que o asno dessa forma para esquecer que ainda existe vida. Então ele nem se apresentou ou deu laudo. Não chamou a polícia, porque não era caso de polícia. Entrou na mão grande com a mulher, e ainda descobriu que além de andar ela ainda possuía movimentos nas pernas capazes de dar duas rasteiras nele e golpes de Karatê.

         O rapaz se tornou manchete de quase todos os jornais depois do fato. Um estudante! E brigando por causa de 1 real? Um absurdo. Chamem todos os órgãos de defesa aos Direitos Humanos, façam reuniões extraordinárias, cumpram a santa constituição! A imprensa nunca vendeu tanto com mais este seu bode espiatório.

        Me desculpe, Tico! Não citarei o nome aqui por ética à sociedade dos valores literários. Hoje o rapaz paga uma indenização altíssima à mulher, que ainda continua pedindo na mesma praça, rastejando da mesma forma. Ela inclusive é candidata à governadora do estado e as pesquisas apontam: ela é favorita. Viva os direitos humanos!


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