• O PROBLEMA COM O POBRE DO VERBO

    Eu nem ia escrever este texto temendo a ideia de que algum linguista tradicionalista o leia. E se o ler ou se ler ele saiba que quem o fez, ou quem fez ele o pariu ou pariu ele como a um filho. Por isso respeite este escrito antes de tudo. Mas nessa fria noite da madrugada resolvo fazer ensaios da língua e resolvi analisar as construções “a gente está” X “nós estamos” X “a gente estamos” X “nós está”.


    Difícil dizer. Mas já começo com a hipótese. “A gente está” soa como normal porque é o mais admissível no ouvido dos mais cultos do Brasil. Os gramáticos ainda detestam a soberania da evolução humana por causa disso. “Nós estamos” é culto de mais, chega a dar medo de um sujeito que te encontra na rua e diz “Nós estamos com um projeto!”. Será uma bomba, uma invasão a base atômica do Irã? O cara usou “nós estamos”, o que pressupõe algo mais sério?! Mas se ele diz “A gente está com um projeto” ninguém leva tão a sério, ou leva e não acha tão urgente. Sacou? E o que falar das tão discriminadas formas “a gente estamos” e “nós está”?

    “A gente estamos” é mais longa. A gente estamos: logo – muitas pessoas. Uma multidão te espera aqui: “a gente estamos te esperando aqui!” “Nós está”- nós é uma célula de pessoas, tão pouco que não vale a pena dizer um verbo mais longo. Que a inquisição linguística dos filhos da velha tradição da conservação das línguas mortas não se interessem por minha literatura e não me leiam. Mas tem outro fato: “a gente vamos” e “a gente vai”. Nesse caso eu me volto em relação à sua pressa. Vou dar uma de gramático de esquerda: se está com pressa “ a gente vai”, se na maré mansa, devagar “ a gente vamos”. Se lembrar que língua não é religião e ninguém deve prescrever como deve falar e sim o contexto, fale pra ser entendido. Dia desses falei a um colega que “a gente vamos”. Ele perguntou quando. E eu disse que vai demorar... “A gente vamos” demanda mais tempo. Logo os sujeitos mais calmos aproveitem pra dizer que “a gente vamos” ler mais esse texto.

    Tapem seus olhos vestibulandos e amassem essa folha. Pobres pessoas que discriminam pessoas por dizerem que “a gente vamos ser alguém na vida”. “Não é ‘a gente vamos’” – sempre tem um metido a gramático – “É ‘a gente vai’” – e o rapaz que disse “a gente vamos” acha que “a gente vai” ser alguém na vida facilmente e decide ou entrar pra política ou traficar drogas. Sim porque “a gente vai”, logo vai rápido. Então “simbora” assaltar um banco que “a gente vai”. Mas essa de faculdade, mestrado e doutorado só funciona se dizendo “a gente vamos” e “ a gente vamos com calma” porque a estrada é longa e se “a gente pensamos” em parar “a gente vai” se dar mal.

    Do mais prescrever uma língua (logo dar uma de médico da língua) é mais falacioso do que dizer que “lugar de mulher é na cozinha” e “ de negro é na senzala”. Os verbos se “vamos” ou “vai”, “somos” ou “é”, “estamos” ou “está” não existem para completar o pobre do sujeito ou pronome – existem porque seguem a regra internalizada do falante: sujeito + verbo. A língua é prescrita como se faz no cânone literário. A língua é sim uma arte de improvisos, e não deve ser considerada uma partitura em que todos devem seguir senão desafinam. Já está comprovada a arte do dom de ouvido do falante. Por que será que eu acho que a gente do Brasil “vamos” demorar muito pra entender isso?