• Síndrome do Coração Partido
    Dedicado à professora Maria D'Ajuda Alomba Ribeiro





    A vida é mesmo uma coisa fatídica! Dona Débora é uma pobre lavadora de ganho do subúrbio carioca, casada a seis anos com o operário Adalberto, nunca teve grandes coisas a não ser os quatro filhos que amava muito, acima de todas as coisas. Uma noite quando os dois estavam fora de casa, aconteceu a maior desgraça da vida deles: a casa deles caiu e todos os quatro filhos morreram.

    Foi uma tragédia, a imprensa noticiou, todos se chocaram. Houve homenagens. Mas a imprensa esqueceu, todos esqueceram, exceto dona Débora e seu marido que sofreram muito. Contudo tomaram uma decisão: para passar a dor, resolveram fazer um outro filho. Mas outra tragédia aconteceu: voltando do trabalho, Adalberto foi atropelado por um Land Rover, um carro importado. Foi horrível, dona Débora quase enlouqueceu, recebeu amparo de psicanalistas, seu caso virou lema de dissertação de vestibulares e concursos, virou dissertação de doutorado, virou projeto de tese de mestrado. E ela passou a ser conhecida por ter “SÍNDROME DO CORAÇÃO PARTIDO”. Mas ela não se conformou, decidiu então tentar o suicídio.

    E foi tentar o suicídio na Avenida Brasil, uma das mais movimentadas do Rio. Ao chegar lá, esperou passar um caminhão para jogar-se debaixo dele. Foi quando ao seu lado parou uma moça que estava com um bebê no colo. O bebê sorriu para ela, foi como um encantamento. Aquela mulher que iria tentar o suicídio, ficou encantada pelo brilho do sorriso daquele bebê. Como é bela a inocência das crianças, não é mesmo? Segundos depois um caminhão estava chocando-se com um carro pequeno, ali na frente de todos eles. Um congestionamento foi formado, foi embora a chance de Débora cometer o suicídio, tudo isso graças a mágica do sorriso de uma criança.

    Débora sentiu-se um monstro. Sentiu-se o próprio Flagelo de Deus – aquele cavaleiro mitológico que quando passava, as flores murchavam, as plantas morriam. Ela sentia-se o próprioFlagelo de Deus, sentia-se um ser tão fracassado que perdeu os quatro filhos que tinha e, depois do sofrimento, quando resolveram tentar outro filho, o marido morreu atropelado. Tão miserável que nem o suicídio conseguiu cometer porque quando iria jogar-se debaixo de um caminhão na Avenida Brasil, ocorreu um acidente antes, e logo em seguida, um congestionamento.

    Pensava tudo isso enquanto voltava para a casa. Mas quando passou na frente de um lixão, ouviu o choro de um bebê. Voltou, o bebê estava no meio dos detritos, como um bicho, subumano! Era aquele bebê que havia rido para ela e despejado o encantamento de sua graça, era o bebê que lhe havia impedido o suicídio. Então, tornou a ser feliz, e descobriu que a vida só acaba quando não há mais seres vivos à nossa volta.



    Gabriel Nascimento