• A CORDA INVISÍVEL

    Subia a rua São Francisco devagar quando voltava do trabalho dia desses quando vi uma cena estranhíssima. De cá de baixo da rua via jovens como que batendo corda e outros pulando. Até aí nada anormal. Exceto porque essa prática é quase inexistente à medida que os jovens se viciam cada vez mais em internet e redes sociais.
    Mas o que me chamou a atenção é que, não sei se por causa do meu problema de miopia (não a humana que nos une socialmente como seres humanos), mas a miopia fisiológica, eu não enxergava a corda. Sim, não conseguia ver a corda. Mas aquilo devia ser a minha cegueira. Tão cegos sobre o caminho da verdade também não vemos cordas e desrespeitamos a opinião do outro. Fiquei encabulado porque meu óculos estava novo. Não, não enxergava corda nenhuma. Me revoltei. Xinguei de todos os nomes possíveis a ótica, o médico oftamologista. E perdi um tempão fazendo isso. Lembro que uma senhora de seus oitenta anos e muitas histórias pra contar começou a me olhar assustada.
    – Aconteceu alguma coisa, meu filho? – perguntou ela.
    – Não consigo enxergar nada direito. – disse eu exagerado.
    – A vida ensina, meu filho, a vida ensina.
    Aquilo não era hora de filosofia. Mas o que ela disse confortou meu coração. Continuei subindo a rua, devagar tentando acreditar no que disse a senhora vida. “A vida ensina, meu filho, a vida ensina”. Bem verdade, a cada minuto tiramos aprendizados que nos desconstroem e fazem de nós outros. Mas, ainda não via a corda! Devia ser um problema da minha cabeça, por que como eles estavam brincando de pular corda, sem corda! Impossível. Parei um tempão pra observar aquela cena e não via nada de corda. Duas meninas batiam a “corda” (esta que eu não via) com tango gosto enquanto um menino e duas meninas pulavam também extasiados. Mas cadê a corda? Eu não enxergava. Ou eles estavam completamente doidos ou eu estava. E quem de nós bichos humanos está lúcido?
    Parei o jogo deles. Precisava tirar a prova dos nove, subtrair pelos cem para saber se eu xingava mais o oftamologista ou me internava no manicômio perto da minha casa. Parei uma menina, peguei na mão dela e perguntei:
    – Cadê a corda?
    Ela me olhou assustada. “Esse cara é doido!”, deve ter pensado.
    – A corda? – perguntou ela. – Você está pisando nela.
    E todos riram. Chacotaram à vontade a minha miopia.
    Também no mundo dos humanos não enxergamos algo, por mais que tentemos enxergar, a nossa miopia humana é maior do que nós.

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