• O FOLDER ROUBADO

    Dedicado à professora Maria das Graças Góes

    Fui participar de um seminário desses que parecem durar uma eternidade. O evento foi em São Paulo, na sede da multinacional Étoile. Fiquei de início encabulado porque, embora tivesse recebido uma pasta com uma série de periódicos sobre as drogas, na mesma não havia nenhum folder. Direcionei-me a um dos organizadores e pedi. Ele disse que já voltaria para me dar e, hoje, três meses depois do evento acabar ainda estou esperando.
    O fato é que eu não sabia quais eram as programações. Via todos exibirem o folder com fundo azul, talvez baseado na semiótica de Peirce. Sim, porque além da cor de fundo ser azul o nome da empresa organizadora, Étoile, que quer dizer “estrela” em francês, no fundo do fôlder caía como uma estrela do céu na frente daquele ambiente azulado. Não me tomes como exagerado! Eu já estava estressado porque depois de pedir a um dos organizadores o folder, voltei a pedir e não me deram!
    Gritar não podia! Iria ser, com certeza, demitido da Etoile jóias S/A. Percebi que o jeito era ouvir atentamente o comentário de cada pessoa para daí saber a programação. O site da empresa era tão grande que, ao digitar o nome do seminário apareceu um histórico sobre a vida do acionista majoritário.
    Caminhei pelo jardim pausadamente, respirando como se fosse a última vez. E se eu roubasse um folder? O que me poderia acontecer? Nada. Nunca ouvi falar de alguém que foi preso por roubar um folder. Tomei coragem e caminhei para dentro da loja. Três mulheres e um homem conversavam casualmente, uma delas tinha a mão sobre o folder que estava na mesa. Olhei, aproximei-me. Nada. A coragem só aparece para os loucos . Para mim faltava muito para chegar a um louco de classe. O que fazer? Poderia pedir emprestado e não devolver, mas aí correria o risco de ser cobrado. Não, seria demasiadamente vergonhoso. Soltei uns palavrões em solilóquio. Fitei novamente a moça com o folder embaixo da mão. Pitra! É assim que xingo quando vejo que o que eu iria dizer poderia ofender a moral de alguém. Ela ouviu. “O quê? Falou comigo?” “Não”, lhe respondi, “Pitra é céu em russo”. Mentira, se ela soubesse falar russo eu estaria deliberadamente perdido.
    Entrei, depois de muito andar em dos escritórios da empresa. Isso perto da palestra geral do acionista majoritário. Lá eu vi, brilhando em cima de uma das mesas, o tal folder. Corri, peguei, guardei no bolso. Roubar pode ser feio, mas se tratando de um folder é educativo. Eu não tinha escolhas. Quando não se dá alternativas, a alternativa é roubar. Essa é a desculpa predileta daqueles que vivem roubando, agora também a minha.
    Agora, já informado corri para a palestra do acionista majoritário. O tal começou o discurso assim: “Eu perdi o meu folder, se alguém achar, me avisa”. Eu achei, quer dizer, roubei. “A pessoa que achou”, ele continuou, “se me der, receberá uma recompensa de cinco mil dólares”. Nem esperei acabar a conferência. Devolvi o roubo, não com o rabo entre as pernas e recebi a grana. É fato é que depois descobri que no folder havia a lista de uma conta milionária da empresa que ele pretendia desviar verbas.

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